"The Office", o escritório do absurdo!




Olá, olá, olá,

Bom dia, bom dia, meu caro leitor!

Sei que meus últimos posts andaram meios "durões", mas confesso que encarei a minha primeira semana sem cigarro e isso prejudicou o pouco de humor que meus leitores encontram aqui. (Pela milésima vez paro de fumar, vou torcer para que não seja a milésima primeira que volto a fumar!) Agora, que o clima cinzento e tenebroso passou, nada como se deter num assunto pra lá de engraçado.

"The office" se passa praticamente inteiro dentro de um escritório, sem absolutamente nenhum recurso dramático e de imagem usual para prender nossa atenção: suspenses, grandes dramas, cenas de ação, efeitos especiais etc. Nada disso você vai encontrar em "The office"

Bom, mas o que prende nossa atenção? Em nossa falsa-humilde opinião, o fato de que os episódios têm sempre uma resolução imprevisível, já que boa parte deles depende da decisão de chefes (durante a maior parte do seriado interpretado por Steve Carrel no personagem Michael) que constatemente submetem seus subordinados a sua mudança de humor, sua vaidade, seus caprichos etc...

Michael é o que pode ter de pior e mais repulsivo em um chefe, incluindo esses adjetivos par falar do seu extremo carisma. Em cada epósido há um climax, um início, um fim ou qualquer outro momento em que ele deixa claro o absurdo na forma como exerce o seu poder. O mais curioso é que, esse chefe-pé-no-saco, esse verdadeiro imbecil, como comenta o próprio ator em entrevista, opera com uma lógica com a qual todos estamos sujeitos a operar se não tentarmos nos distanciar dela. Acompanhar Michel nesse seriado hiper-justo-crítico contribui e muito para isso!
Quero convencer você, meu caro leitor, da minha hipótese de que o bichinho do autoritarismo e do mimo daquela pessoa cujos gestos com mais frequência você abomina, porque de alguma forma tem um lugar da autoridade e poder de decisão sobre partes da sua vida (pais, mães, patrões, treinadores etc.), está dentro de você.

Venhamos e convenhamos... Com certeza já te aconteceu de, num dia inteiro, seu único prazer em estar com outras pessoas tenha sido corrigir alguém quanto ao melhor caminho para o bar, um procedimento, um número ou qualquer coisa ínfima. Sejamos no mínimo razoáveis e sinceros em admitir: quanto maior o desgosto que temos em levantar da cama para ir ao local de trabalho, por exemplo, maior ficam essa pequenas alegrias.

Ora, ora, ora... Quantas vezes nos enfurecemos por termos pego no ar certo deleite, por parte de quem está te corrigindo,  ao fazê-lo? É muito bom ser corrigido em algo errado que estamos fazendo e disso depende o aprendizado. Contudo, essa forma de fazê-lo, sem dúvida, desanima e muito (quando não bloqueia) a incorporoção de qualquer saber.

Porém, contudo, todavia... E se esse saber não integrar nenhuma lição? E se esse saber, que tanto prazer o autoritário tem em 'compartilhar', for totalmente arbitrário e, por isso, nunca o conseguimos alcançar? E se a correção for simplesmente absurda?

Hoje em dia já deve haver muito livro de auto-ajuda que ensina a como lidar, por exemplo, com chefes abusivos. E livros de auto-ajuda cuja meta seria apenas e unicamente formar chefes não abusivos? Dá pra entender por que não fizeram, mas convenhamos, ia ser bem terapêutico o surgimento de uma bibliografia ficcional e de todas as áreas dos conhecimento voltada pra o drama de se sentir dezautorizado.

Ah! O mimo... o mimo, o mimo, o mimo! Impor sua vontade, desejos, fantasias com a força é algo que as crianças estão acostumadas a fazer, a força do berro e do corpo que se debate. Como crianças, os mimados merecem sempre um desconto; mas como adultos, são um verdadeiro perigo ambulante a qualquer coletividade!

Michael Scott: Te amamos por te odiar!


Te amamos porque em você reconhecemos nossa vontade de ver a todos dançando conforme nossa música. Em ambientes de trabalho, e aqui em São Paulo são a maioria pelo que ouço dizer, a competição chega a um ponto em que leva-se anos, e anos, e anos, e anos (caso algum dia se consiga) para descobrir que não há um único salção de festas no planeta terra.

Brigar, invejar, disputar, promover intrigar, difamar etc. Quantos vezes não vimos isso ocorrer por causa de um mero grampeador?

É preciso abrir mão da música a ser tocada quando ela está desafinada e, desafino, de modo geral, quem nos avisa são os outros.

PS: Por acaso escrevi esse post uma semana depois que o seriado acabou. Fica aqui minha homenagem ao melhor seriado que já assisti, espero escrever sobre ele outras vezes, pois seus episódios são ricos o bastante para isso.


Onde liga a mulher elétrica? (Show dos Racionais – Parte II)





Olá, olá, olá... 

Confesso que sou uma ouvinte de rap universitária. Portanto, sempre gostei das letras dos Racionas apesar do machismo e não por causa dele. Depois do show da Virada Cultural deste ano de 2013, cheguei em casa e corri para ouvir as músicas novas da banda, que ainda não saíram em CD, e entre elas encontrei “Mulher elétrica”, lançada já faz 4 anos. Só pelo título, fiquei morrendo de curiosidade de ver como uma das minhas bandas prediletas tinha se dedicado a uma forma de representação da mulher que não tinha nada de pejorativa.

De fato, não era pejorativa, mas o tipo de lisonjeio que ofereceu soou, vindo de uma banda tão séria, menos do que migalha...

Na minha falsa-humide opinião, além de despolitizada, a música não é um rap, nem no ritmo, tipo disco anos 80; nem na letra, em que a repetição do sujeito e do verbo "Ela é..." não nos conta nenhuma história ou afirma alguma crítica:

Ela chega, Ela olha, Ela bate um flash, Ela invade a
pista e ninguém se mexe
Ela dança, Ela ri, Ela quer curtir, quer amar, quer
beijar quer se divertir
Ela manda, Ela pode, Ela é quem faz, Ela é funk, Ela
é samba, Ela é mais mais mais
Ela é Dolce & Gabbana, Ela é Louis Viton, Ela é Madureira,
Ela é Kingston, Ela é Barra Funda, Ela é Bela Vista,
reflete no globo ilumina e pista, Ela é...

Ela é preta na cor loira no cabelo, Ela é 1 hora e meia
em frente ao espelho, Ela é...

Ela é Naomi, Ela é Clara, é Nunes, é Dona Summer,
Rosa, é Sônia, Ela é Tereza,

Ela é Ana, Ela é Glória, Ela é bem Brasil, me engana
que eu gosto ela tem tristeza balança o swing rara
beleza, Ela é...


Vejamos que os predicativos do sujeito que completam o "Ela é..." podem ser agrupados em três: coisas que ela faz; nomes de marcas caras e bairros populares; e nomes próprios, de cantoras famosas e mulheres comuns. No caso das coisas que ela faz, chama atenção o fato de não ter nem uma atividade que envolva elementos intelectuais: trabalho, diálogo, posicionamento etc... Tudo isso parece estar fora da musa a quem a música se dedica e que é a garantia principal de sua verossimilhança, a feminilidade real da mulher do funk.

"Somos o que somos, somos o que somos, cores e valores, cores e valores" Se deslocássemos esse verso da música feita pra Marighella para esta outra, será que não poderíamos tirar daí um sentido um tanto conservador? Falo assim... Durante todos esses anos fazendo rap pra convencer os manos disso ou daquilo; agora, quando fazem uma tentativa de falar para as minas, não se tenta convencê-las de nada, aceita-se o 'somos o que somos'? Simplesmente se abandona o rap e a própria tentativa de mudar o imaginário das periferias de todo o Brasil?

Vejamos quão sintomático são os predicativos do segundo tipo, que opõem marcas caras e bairros populares.Porque não opõem marcas de roupas caras a marcas baratas, ou bairros caros a bairros baratos? Porque evitar comparações da mesma natureza? O que aconteceu com o brinde da garrafa de champanhe com a tubaína tuti-frutti?

Ao que parece, antes dava pra fazer esse brinde porque tinha uma música inteira dizendo que ele não era uma tentativa de harmonia entre a união das classes. Contudo, nessa música "Mulher elétrica", a mulher construída pelas sobreposições de imagens é a "mulher brasileira", sem classe e sem cor porque imaginada como sem história e, principalmente, sem ter características intelectuais, no sentido amplo da palavra, positivas.

No final das contas, vejamos que música não se dirige às minas tal como esperaríamos de um rap, e  apenas tenta convencer os homens a não serem ciumentos sem se sentir otários. Notemos os trechos abaixo:

Ela opera a festa, Ela é quem comanda e a minha
comanda quase preencheu, mais
Se Ela vier valeu.... ooo entendeu...
Contos de uma festa Black é a cinderela High Tech, vai
vendo muleque, Ela foi capaz
de entrar no banheiro e não voltar mais, Ela é...


(refrão)
Onde vai...? Mulher Elétrica
Mulher Elétrica 3000 volts
Ela é frenética hipinotizou
Haaaau maquiavélica me atraiu
Onde vai...? Mulher Elétrica
Mulher Elétrica...


Essas duas estrofes são intercaladas pela mensagem automática que avisa que o telefone está indisponível e diz: "por favor, verifique o número discado e tente novamente". Haveria então, junto com essa "mulher-predicativo", outra que age, domina a festa, 'cinderela Higt Tech' que dá um perdido em um cara na balada, maquiavélica.

Bom... Eu seria a primeira interessada em levar a cisão para o lado poético, se caso falássemos de poesia/canção (ainda que não fosse rap) de qualidade. A própria expressão, 'maquiavélica' denuncia o tipo de machismo antigo, não porque o termo em si mesmo foi empregado na música, mas porque, ao longo da música toda, é a única qualidade intelectual que a imagem da mulher na música apresenta.  Ou seja, o problema do termo 'maquiavélico' não é o seu emprego, mas a maneira como é empregado, isolado entre a maioria esmagadora das qualidades ligadas ao corpo, à emoção, ao comportamento etc.

O sentido de 'maquiavélico' é reforçado pela a imagem geral que a totalidade da musica constrói de uma mulher que dá um perdido em um cara. Mas por que ela dá perdido em um cara? Vejamos esse outro trecho da música:

3 da manhã, Ela é só suor, Ela flerta, Ela causa, Ela é
mó B.O.
Ela é manta, é nagô, é ioruba, Ela é vingativa, Ela é de matar !!!
Ela canta, Ela chora, Ela multa, Ela compra, Ela bebe e malandro paga, Ela...
E a festa não acaba... uns 10 na fita e eu também...
se vai vai, vem vem...


Como pode se ver no trecho acima, o motivo do perdido fica implícito no 'malandro paga' ou é impressão minha? Na música, esse verso sofre até uma quebra no ritmo para ser destacado.Fico muito receosa em fazer um juízo moralista da música, mas há nela uma espécie de convocação de uma mulher abstrata e generalizante que lembra sua representação na música de Jorge Ben Jor, mas sem a leveza e a ginga daquele, nem a profundidade e capacidade de reflexão crítica do rap por meio de imagens cujas narrativas constroem dramas e dilemas. Os Racionais e o rap sempre tentaram desfazer mitos. Porque agora construir uma mulher "Cinderela High Tech"?

Afinal, não parece haver mulher elétrica nenhuma. Se ela é elétrica e de atitude (não elétrica no sentido de um objeto a ser ligado na tomada) porque ela desliga o celular ao invés de falar diretamente com o mala que fica ligando? Por que não pode deixar claro o que quer? Porque não pode ser nada mais do que objeto de 'pagação de pau'? Porque não pode ter uma trajetória como os homens representados no rap?

Ao que parece, junto com o ritmo pop que substitui o rap nessa música, a mulher elétrica perde a bateria e fica pra lá de ofuscada!

Por que a Virada Cultural de 2007 foi a mais violenta de todas? (Show dos Racionais – Parte I)



Olá, olá, olá,

A foto acima é do show dos Racionais na Virada Cultural desse ano de 2013. Olhando assim, ela parece só um amontoado de gente que achou um bom lugar para enxergar o palco, contudo, ela testemunha um fato histórico. Em 2007 o show foi na minúscula praça da Sé e de noite. Um grupo de pessoas subiu em cima  de uma banca de jornal para ver a banda e essa foi a justificativa OFICIAL para que se cercasse milhares de pessoas (reunidas para ouvir música) com a cavalaria e a tropa de choque, e em seguida expulsassem a todos do local com balas de borracha e bombas de efeito moral.

Agora, em 2013, a foto acima prova que, em um show público, subir em cima de prédios, postes, bancas, monumentos etc. nunca foi caso de polícia e ela mentiu descaradamente sobre suas reais intenções. Mas porque então o público foi atacado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMSP)? Segundo a própria banda fala e eu concordo, ela é composta pelos pretos mais perigosos do Brasil. De fato, os Racionais foram e são cruciais para a politização da periferia em relação à violência policial e seus pilares fundamentais, a pobreza e o racismo. Eles foram cruciais para que o abuso de poder da polícia passasse a não ser internalizada como culpa do cidadão, mas vista como problema da polícia e dos governos.

Os Racionais são perigosos principalmente para a gestão tucana do Estado de São Paulo, que tem na  polícia militar sua principal vitrine, já que problemas sociais são tratados como caso de polícia. Na verdade, como no caso de Pinheirinho e outros que manchram de sangue a gestão tucana, há até registros de casos de policiais que estupraram mulheres nesse momento tão 'técnico', como diria o juíz (ir)responsável pela ordem de reintegração de posse. Notícias como essa deveriam estar na verdadeira vitrine da gestão tucana, já que a pauta de segurança pública é tão valorizada por esse partidinho.

Ter transformado essa lógica de gestão pública em música que circula até hoje entre milhares de pessoas foi o grande perigo e custou, além da violência armada contra o seu público, a falta, nos outros cinco anos da Virada Cultural, da banda paulista mais importante das duas últimas décadas. O palco do rap também passou a ser o único em que a platéia teve de se sujeitar à revista policial para assistir um show.

 É sempre um pouco humilhante e estranho lembrar daquele dia, mas é necessário para que não ocorra de novo. A gritaria, a fumaça, os cacetetes, as viaturas dando cavalinho de pau e atirando pra cima, os cavalos, o tentente declarando que show dos Racionais é assim mesmo... Por outro lado, deu orgulho ver que parte do público estava preparada pra resistir àquele modo de agir da PMSP. Naquele dia eu vi pelo menos uns trinta adolescentes sentarem na mureta de um gradeado ao lado da Sé, se recusando a ir embora, ainda que sabendo que teriam de ir.

Pra quem não sabe, a própria ONU já sugeriu a extinção da PMSP. É chocante, mas até o regaste de feridos feito pela PM passou a ser proibido e o próprio governo admitiu a queda no número de homicídios depois disso*!!! Vejam o quanto a polícia paulista mata indiscrimanademente e o governo sabe disso!!! Como disse um amigo e dados como esses nos fazem acreditar: "Será que porque a polícia fez corpo mole, nesse ano, a virada cultural teve só um homicídio?"

Por esses motivos a Virada Cultural de 2007 foi a mais violenta: naquele ano a policia atacou ela mesma o público, em 2013 ela apenas fez corpo mole** para estimular assaltos e brigas comuns em eventos públicos gigantescos. 

Infelizmente, não é só na Virada Cultural que a polícia militar paulista aumenta as estatísticas de violência ao invés de reduzi-las. Contudo, se não formos capazes de pensar isso em um momento em que isso está tão evidente, não conseguiremos fazê-lo no resto do ano, que é quando realmente sua atuação interessa, já que a Virada Cultura, no final das contas, passou muito bem sem ela, tal como a ONU, em rara demonstração de utilidade, havia previsto.



*O jornal O Estado de São Paulo deu essa notícia no dia 17 de maio deste ano na reportagem <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,homicidio-cai-pela-1-vez-em-9-meses-e-governo-atribui-a-fim-de-resgate-da-pm-,1032577,0.htm>
**O corpo mole da polícia para gerar dados de violência’ foi denunciado pelo portal IG de notícias ontem, na reportagem <http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-05-20/prefeitura-de-sao-paulo-tenta-despolitizar-violencia-na-virada-cultural.html>

Não tem educação, não?! NÃO! (Marilena Chauí)

Olá, olá olá,

Hoje trago uma interlocutora de peso: "Marilena Chauí". Esse é um vídeo que tem poucos acessos, mas terá acessos sempre porque já é um clássico. A filósofa compartilha um pouco, com quem é de fora de São Paulo, do cotidiano de quem vive aqui e, infelizmente, é lúcida de matar. Quase como uma bigorna que cai sobre a cabeça de quem pensa só um pouquinho criticamente  o cotidiano. Inclusive, acho que sua fala pode ser ampliada e se dirigir às pessoas que compartilham dessa cultura de modo geral e não só à classe média paulistana.

Ela fala de uma situação em um estacionamento na qual, após reclamar com um casal de meia idade por ter ocupado duas vagas de carro, ela entrou numa discussão e que é chamada de velha feia e foi empurrada. Gostaria aqui que transpuséssemos a reflexão que ela desenvolve em sua aula para uma relação íntima de amizade. Segundo a filósofa, há um modo de pensar no qual todas as diferenças (culturais, políticas, econômicas, corporais etc. ) são hierarquizadas como se fossem naturais. Por exemplo, porque há um relevante grupo social que se recusa a cogitar que a magreza e a idade poderiam não ser levadas em conta no julgamento sobre a beleza de uma mulher? Transformadas em hierarquias naturalizadas, estas operam como regras a se cumprir: estar no peso ideal para sua altura; clarear periodicamente os dentes; usar roupas 'de acordo' com a idade; não descuidar da higiene pessoal; estar presente em todos os encontros por mais que você se sinta cansado; não levar tristeza ao local da festa; não estar sem dinheiro; fazer as tarefa de casa se é mulher; pagar uma empregada, se é homem; nunca expor conflitos afetivos em público etc. Essas regras, que a princípio são meros dados antropológicos, são, contudo, elevadas ao nível ético,  e a ética mesmo, como reflexão sobre o arbítrio e a liberdade, passa simplesmente a não existir

Imaginem qualquer uma dessas regras valer mais do que a cumplicidade de uma conversa entre amigos? Quer desabafar? Tudo bem. Contanto que fique claro que seus problemas existem porque seu estilo de vida não é igual ao do seu amigo que te apóia! Como nos faz pensar a filósofa, fazer seu amigo se sentir apoiado pela sua presença não é algo que nessa cultura hierárquica deva ser levado em conta. Pelo contrário, um amigo com muito problema tende a ser punido, já que isso de certo é mero desvio do modo correto de se viver.

Ora, ora, ora... Na verdade, por aqui, só os objetos têm sido realmente levados realmente à sério. Quer magoar alguém? Responda um tapa na cara com um chute no carro do agressor. Aí sim você vai ver que não foi nada pessoal contra a prof. Marilena Chauí, que foi empurrada por conta da vaga de um carro. O próprio dono seria o primeiro a pedir pra ser espancado se isso pudesse salvar seu carro de algum arranhão.

É... Tem sido difícil fazer e manter amigos por aqui... Na verdade, a figura do 'amigo' tende a ser reduzida à mera presença mais ou menos agradável nas reuniãozinhas periódicas das turmas. O amigo mais legal e o mais esperado na balada é em geral sempre aquele que estaria no topo de alguma hierarquia valorizada pelo grupo. Nem o cara engraçado, que antigamente toda turma prezava, hoje parece merecer muita atenção! Afinal, o que é a capacidade de fazer piadas perto de um grande título acadêmico, um carro do ano ou uma promoção no trabalho? Parando pra pensar honestamente só um segundo: com quem realmente fazemos questão de estar na mesa do bar quando saímos para tomar uma cervejinha com o pessoal do trabalho?

Poucas vezes irá se ver um professor da USP empregando seus conhecimentos em situações do cotidiano, mais raro ainda é vê-los fazendo isso de modo a nos deixar loucos para voltar ao prosaico do dia a dia e se posicionar! Marilena Chauí ainda é exemplo cada vez mais raro de intelectual que não se 'perdeu' nunca nos corredores bolorentos e fantasmagóricos da universidade. É.... Ainda bem que ainda existem os vivos para assustar os mortos!

Segue acima a versão filosófica-sociológica da canção "Não existe amor (no espaço público) em SP", de Crioulo!

Com o pé na cova da vala incomum (Pé na Cova)


Olá, olá, olá,

Nesse grande teatro de palcos simultâneos que é a televisão, vamos comentar o programa "Pé na cova". Antes de dar notícias ao leitor desavisado sobre a trama e os personagens, é importante notar que o programa é uma tentativa de fazer uma espécie de Avenida Brasil do seriado de humor. Iluminação, cenário, figurino. Tudo lembra a antiga novela. A montagem da família, centrada em um casal de meia idade separado, Ruço e Darlene, também lembra o casal Leleco e Muricy, aliás, sendo este um dos poucos nomes de mulher que não terminam em 'a', como os nomes portugueses. Contudo, tirando essa semelhança, em nada mais os roteiros se parecem.

 A principal diferença de "Pé na cova", sem dúvida, é a tentativa de instaurar não só outra variante linguística como referência, como outra gramática moral. Em ambos os casos, contudo, a tentativa é inconsistente. No caso da variante, às vezes um erro de concordância, uma gíria, uma ou outra fala com muito sotaque carioca, mas ele, como um todo, meio indefinido. As marcas que os roteiristas querem dar de uma suposta classe C e D fica mais por conta de um modo de organizar as falas e por vezes vemos os personagens especular sobre uma palavra ou falar em forma de ditado, valorizando o conhecimento popular.

Até aí, temos uma linguagem que, mal ou bem, se arrisca diante do 'sotaque neutro' ou daqueles tido como típicamente regionais e que costumam ser estigmatizados. Contudo, quando partimos para a reflexão da gramática moral implícita nessa narrativa, a postura de risco vem acompanhada de extremo conservadorismo.

Para quem não sabe, o seriado é centrado numa família que vive no limite da legalidade para conseguir sobreviver com uma funerária. Ela é composta pela matriarca que vivê bêbada de gim, Darlene (Marília Pêra); pelo patriarca Ruço (Miguel Falabella); sua jovem esposa  Abigail (Lorena Comparato) e pelos filhos do ex-casal, Odete Roitman (Luma Costa), a única que ganha dinheiro de fato, posando nua na internet, e Alessanderson (Daniel Torres). Ainda dividem a casa a secretária do lar Adenoide (Sabrina Korgut) e a Bá (Niana Machado), ex- escrava bem velhinha que não fala e é tratada como uma planta que é levada de tempos em tempos para tomar sol e se alimentar.

"Meu mau é a birita.. meu mau é a birita..." Essa é a música de fundo da principal personagem, Darlene, que Marília Pêra faz com maestria, mas no limite entre a sobriedade e a bebedeira que incomoda. Ela nem fica bêbada a ponto de, menos matriarca, podermos rir dela à vontade. Nem fica sóbria à ponto de rirmos de uma mulher que não precisa da desculpa da bebida para falar o que pensa e ser livre. Esse meio termo também aparece exatamente na relação que Ruço tem com sua atual mulherm  Abigail, sempre confundida com sua neta, e a filha. Com Abigail, Ruço é extremamente conservador e grosso, ainda que permita (!) a ela, no primeiro episódio, ir ao baile com a filha Odete Roitman. Já com essa última, Ruço tem uma relação extremamente liberal.

No capítulo inicial Ruço cumprimenta a filha de manhã perguntando se logo cedo ela estava trabalhando e ela, só de lingerie, pede sugestão de roupa pra usar com os clientes japoneses que a esperam on-line. Darlene tem muito orgulho do que a filha faz e, certa vez, se oferece até para segurar a câmera. Ruço a questiona como se fosse o público e ela diz ter orgulho da filha como um todo e não disso particularmente. A aceitação do trabalho de Odete Roitman é ambígua, pois não se sabe se o que é aceito é a liberdade da filha ou a filha como arrimo de família, afinal, como a personagem diz, é ela quem ganha algum dinheiro em casa. Quando põe a virgindade para vender na internet, Darlene ajuda a filha a fazer o leilão, enquanto Ruço tenta falar de amor. Darlene alerta a filha de que seu pai só fala bobagem  e a cena é interrompida por um conhecido do bairro que quer dar um salão de beleza em troca da virgindade de Odete Roitman.  O sujeito acaba sendo expulso a socos por Ruço e a família, mas a cena, parece não ter nenhuma força, já que o épisodio inteiro trata com normalidade a escolha da filha em vender seu hímen. Os protestos de Ruço, na verdade, são tão fracos que reforçam essa normalidade.

Ora, ora, ora... Não queremos aqui deixar de admirar a coragem do autor ao formar as duas duplas de irmãos: as gêmeas Soninha (Karin Hils) e Giussandra (Karina Marthin), que são uma negra e outra branca; e o casal de irmãos Tamanco (Mart'nália) e Marcão (Maurício Xavier) que optaram pelo sexo oposto. Criar o casal Tamanco e Odete Roitman também não é uma façanha menor, ainda que faltem cenas românticas entre elas para que seja configurada uma ruptura que pegue uma brecha na sensibilidade do telespectador. Contudo, nessa nova gramática de valores, onde ser negro ou homossexual é construído de modo complexo, quem parece se manter reduzida é a representação da mulher. Não à toa há, nesse programa, uma personagem como Luz Divína, uma senhora de idade com uma maquiagem bem pesada que vive repetindo como se acha bonita. Ora, ora, ora... rir da falsa pretensão de uma mulher em ser bonita para impor um padrão de beleza (discreto na maquiagem e jovem) é coisa muiito antiga! Recentemente vimos o Comédia MTV investir num personagem como  Fernandona, feita por Tatá Werneck, mas a insistência nele já era bem um tipo de sucesso decadente do programa, famoso por sair desses tipos de clichês apelativos.

Sim... Era para o progmara "Pé na Cova" ser engraçado, mas isso se tornou difícil de diversas maneiras.

É como se um clima de extrema ignorância, marcado pela representação de certo modo de conversação; se unisse ao clima de extrema necessidade, marcado pelo fato de que a funerária  ser, além de falída, uma funerária. Essa união parece tornar triste, e não engraçada, a separação de Ruço e Darlene, a liberdade de Odete Roitman e a ida para a política do filho desempregado e sem estudo,  Alessanderson. Ver a jovem esposa Abigail ouvir Ruço mandar ela calar a boca sem falar nada também não é nada engraçado nesse contexto. Ao invés de um seriado de humor temos uma profusão de representações de uma suposta classe C e D que não parece ter seus dramas levados a sério a ponto de que se ria deles. Inserir pitadas de poesia, característica do autor, não só não vai resolver como deixa o seriado ainda mais longe do humor.

Tenho certeza de que, mais uma vez, a representação da mulher é crucial para a falta de ibope desse programa, ainda que outros motivos pudessem ser apontados. Enquanto nenhuma delas realmente imprimir seus ritmo, de alguma forma, a essa narrativa, elas serão apenas mulheres desinteressantes que não buscam (ou buscaram) nada de modo determinado, nem dinheiro, nem amor, nem conhecimento, nem nada. Não dá pra rir nem pra chorar com elas. Por enquanto, Darlene ( a matriarca alcólatra), Abigail  (a joven esposa) e Odete Roitman ( a lésbica stripper de internet) são personagens que foram concebidos para serem transgressores da ordem. Contudo, para que sejam  personagens de humor, que é o que interessa para que sejam efetivamente transgressores, seria necessário serem mais do que mulheres da fase da vida de um homem: a ex-mulher chata e sábia; a atual mulher jovem, sexy e carente; a filha que envergonha o pai com o exercício da sua sexualidade, respectivamente.

Darlene prefere que o ex-marido esteja com uma mulher mais jovem e sua filha fique nua na internet? Odete Roitmam prefere vender sua virgindade? Abigail prefere a dependência de um cara que parece seu avô? Tudo isso poderia ser desejo de liberdade delas, contudo, o seriado atribui esse desejo a elas sem que haja conflito consistente, nem interno, consigo mesmas; nem externo, com outras personagens. A independência, a altivez e a força dessas personagens são tão fracas que, de fato, soam como algo do gênero trágico e não do humor, que exige personagens que não podem inspirar nenhum tipo de pena.

Roda Viva mostra os dentes e Tom Zé a engole!

 
Olá, olá olá,

Aqui segue a entrevista (?) de Tom Zé ontem ao Roda Viva. Pra quem está na dúvida em apertar o play eu juro que cada minuto da companhia dele vale ouro. Apenas nas entrevistas de Guimarães Rosa vi essa total capacidade de  comandá-la e transformar quase por completo a sua situação enunciativa. Deixando o termo técnico de lado, é mais e menos do que uma entrevista um entrevistado que a inicia lendo poemas que fez para cada um dos entrevistadores. Tom Zé começou pelo apresentador do programa e acabou, ironicamente, com o poema mais elogioso para o cartunista Caruso. De fato, neste novo formato, o melhor entrevistador é aquele que não faz perguntas. Tom Zé fala em forma de poesia e teoria.

Impressionou também o modo  uma espécie de estrela e anti-estrela. Se por um lado vemos um senhor de idade tentando deixar um tablet desbloqueado sem conseguir e expondo os fracassos musicais e as puxadas de tapete que resultaram em 25 anos de ostracismo e o quase abandono da carreira musical; por outro lado ele é uma estrela pós-moderna que muda a lógica da lógica de se tornar uma figura pública como artista. Tom Zé não quer e não consegue fazer média. Seu corpo, seu sotaque, seus gestos são Irará. A classe média e a elite não teriam como suportar, e alguns entrevistadores não conseguiam esconder isso com caras de quem não entendem o que não merece ser entendido. Afinal, o que a sua forma de pensar não alcança só pode ser meio ridículo, não? Do alto da bancada desse programa decadente alguns mostravam sutilmente os dentes. E Tom Zé, como grande músico, orquestrou essas arcadas de modo impecável.

Nem quem é fã da sua música não entendeu, como Patrícia Palumbo. Ela perguntou se Tom Zé tinha noção de quanto ele era contemporâneo, dada sua importância para músicos importantes mais jovens. Ora, ora, ora... Tom Zé não precisa sentar a bunda no Roda Viva e se afirmar da mesma maneira que o establishment. Afinal, e se os músicos jovens não gostassem de sua música? Seria menos contemporânea? O músico dispensa completamente argumentos de autoridade. Patrícia, contudo, parece ter dirigido a Tom Zé a pergunta que queria fazer para os outros entrevistados. Sim. A maior parte deles têm dúvidas da "contemporaneidade" de Tom Zé, não por sua música, mas por esse corpo, pérola nordestina, que não se dobra.

É muito sutil mas... Porque Wisnik precisa dizer que reconhece Tom Zé como artista? No meio de um pergunta sua encotramos essa observação, como vocês verão, como se, ainda, o músico e o telespectador precisasse desse tipo de certificação:  "qual você acha que é o papel da arte, que eu sei que é o que você faz..." Também é meio bizarro que Teca Lima assuma um tom professoral para explicar ao próprio músico o fracasso de "Todos os olhos": "é um álbum que você radicalizou muito... experimentou demais... muito." Mas o vencedor desse Top 3 vai mesmo para o apresentador que, depois de tentar não dizer o nome de Tom Zé, numa espécie de homenagem, deixa escapar:  "Voltamos com Tom Zé, o jardineiro das Perdizes." Entre músico, inventor e jardineiro, porque jardineiro? Ressentido em ver sua entrevista comandada pelo entrevistado, pouco imaginação resta a Conti.

É. Só uma linguagem revolucionária como a de Tom Zé para lidar com mentalidades que tentam, mas não conseguem ao menos esconder a mediocridade, bem representada no Roda Viva, que graça no jornalismo e entre intelectuais de modo geral. No fim de semana irão todos jantar em restaurantes caros e comentar como Tom Zé é uma pessoa difícil. Seu amigos vão concordar e, como nos últimos trinta anos, vão se acalmar por saberem que são muito superiores e esclarecidos diante desse "doidinho ressentido". Pois é... Tom Zé expõe o que seriam supostas fragilidades suas e quem se acostumou a escondê-las acredita nelas. Ora, ora, ora... Frágil mesmo é quem esconde seus defeitos, suas fraquezas e, de certa forma, sua humanidade. Nesse sentido, a entrevista é de um gigante feita por uma maioria de pessoas de tamanho normal.

Bom, mas o que realmente importa é que, ao que parece, as gerações mais novas chegaram a tempo de reconhecer e divulgar não só o seu trabalho, mas também uma forma radical de exercício da liberdade musical e de opinião. Sem dúvida, ela também reconhece quem, antes da era da internet, conseguiu fazer sua música e seu público fora de toda essa lama-mesmice de ideias e linguagens feitas por gente que repete, a cada ano que passa, com mais afinco, as mesmas ideias