Não tem educação, não?! NÃO! (Marilena Chauí)

Olá, olá olá,

Hoje trago uma interlocutora de peso: "Marilena Chauí". Esse é um vídeo que tem poucos acessos, mas terá acessos sempre porque já é um clássico. A filósofa compartilha um pouco, com quem é de fora de São Paulo, do cotidiano de quem vive aqui e, infelizmente, é lúcida de matar. Quase como uma bigorna que cai sobre a cabeça de quem pensa só um pouquinho criticamente  o cotidiano. Inclusive, acho que sua fala pode ser ampliada e se dirigir às pessoas que compartilham dessa cultura de modo geral e não só à classe média paulistana.

Ela fala de uma situação em um estacionamento na qual, após reclamar com um casal de meia idade por ter ocupado duas vagas de carro, ela entrou numa discussão e que é chamada de velha feia e foi empurrada. Gostaria aqui que transpuséssemos a reflexão que ela desenvolve em sua aula para uma relação íntima de amizade. Segundo a filósofa, há um modo de pensar no qual todas as diferenças (culturais, políticas, econômicas, corporais etc. ) são hierarquizadas como se fossem naturais. Por exemplo, porque há um relevante grupo social que se recusa a cogitar que a magreza e a idade poderiam não ser levadas em conta no julgamento sobre a beleza de uma mulher? Transformadas em hierarquias naturalizadas, estas operam como regras a se cumprir: estar no peso ideal para sua altura; clarear periodicamente os dentes; usar roupas 'de acordo' com a idade; não descuidar da higiene pessoal; estar presente em todos os encontros por mais que você se sinta cansado; não levar tristeza ao local da festa; não estar sem dinheiro; fazer as tarefa de casa se é mulher; pagar uma empregada, se é homem; nunca expor conflitos afetivos em público etc. Essas regras, que a princípio são meros dados antropológicos, são, contudo, elevadas ao nível ético,  e a ética mesmo, como reflexão sobre o arbítrio e a liberdade, passa simplesmente a não existir

Imaginem qualquer uma dessas regras valer mais do que a cumplicidade de uma conversa entre amigos? Quer desabafar? Tudo bem. Contanto que fique claro que seus problemas existem porque seu estilo de vida não é igual ao do seu amigo que te apóia! Como nos faz pensar a filósofa, fazer seu amigo se sentir apoiado pela sua presença não é algo que nessa cultura hierárquica deva ser levado em conta. Pelo contrário, um amigo com muito problema tende a ser punido, já que isso de certo é mero desvio do modo correto de se viver.

Ora, ora, ora... Na verdade, por aqui, só os objetos têm sido realmente levados realmente à sério. Quer magoar alguém? Responda um tapa na cara com um chute no carro do agressor. Aí sim você vai ver que não foi nada pessoal contra a prof. Marilena Chauí, que foi empurrada por conta da vaga de um carro. O próprio dono seria o primeiro a pedir pra ser espancado se isso pudesse salvar seu carro de algum arranhão.

É... Tem sido difícil fazer e manter amigos por aqui... Na verdade, a figura do 'amigo' tende a ser reduzida à mera presença mais ou menos agradável nas reuniãozinhas periódicas das turmas. O amigo mais legal e o mais esperado na balada é em geral sempre aquele que estaria no topo de alguma hierarquia valorizada pelo grupo. Nem o cara engraçado, que antigamente toda turma prezava, hoje parece merecer muita atenção! Afinal, o que é a capacidade de fazer piadas perto de um grande título acadêmico, um carro do ano ou uma promoção no trabalho? Parando pra pensar honestamente só um segundo: com quem realmente fazemos questão de estar na mesa do bar quando saímos para tomar uma cervejinha com o pessoal do trabalho?

Poucas vezes irá se ver um professor da USP empregando seus conhecimentos em situações do cotidiano, mais raro ainda é vê-los fazendo isso de modo a nos deixar loucos para voltar ao prosaico do dia a dia e se posicionar! Marilena Chauí ainda é exemplo cada vez mais raro de intelectual que não se 'perdeu' nunca nos corredores bolorentos e fantasmagóricos da universidade. É.... Ainda bem que ainda existem os vivos para assustar os mortos!

Segue acima a versão filosófica-sociológica da canção "Não existe amor (no espaço público) em SP", de Crioulo!

4 comentários:

  1. Post muito abismático para um surfista como eu.
    INCOMPREENSIVEL

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    1. Oi surfista! Tentei deixar o texto mais claro. Espero que goste!

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  2. Excelente noticias. Bom para entender o m,emento. muito claro.

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