Com o pé na cova da vala incomum (Pé na Cova)


Olá, olá, olá,

Nesse grande teatro de palcos simultâneos que é a televisão, vamos comentar o programa "Pé na cova". Antes de dar notícias ao leitor desavisado sobre a trama e os personagens, é importante notar que o programa é uma tentativa de fazer uma espécie de Avenida Brasil do seriado de humor. Iluminação, cenário, figurino. Tudo lembra a antiga novela. A montagem da família, centrada em um casal de meia idade separado, Ruço e Darlene, também lembra o casal Leleco e Muricy, aliás, sendo este um dos poucos nomes de mulher que não terminam em 'a', como os nomes portugueses. Contudo, tirando essa semelhança, em nada mais os roteiros se parecem.

 A principal diferença de "Pé na cova", sem dúvida, é a tentativa de instaurar não só outra variante linguística como referência, como outra gramática moral. Em ambos os casos, contudo, a tentativa é inconsistente. No caso da variante, às vezes um erro de concordância, uma gíria, uma ou outra fala com muito sotaque carioca, mas ele, como um todo, meio indefinido. As marcas que os roteiristas querem dar de uma suposta classe C e D fica mais por conta de um modo de organizar as falas e por vezes vemos os personagens especular sobre uma palavra ou falar em forma de ditado, valorizando o conhecimento popular.

Até aí, temos uma linguagem que, mal ou bem, se arrisca diante do 'sotaque neutro' ou daqueles tido como típicamente regionais e que costumam ser estigmatizados. Contudo, quando partimos para a reflexão da gramática moral implícita nessa narrativa, a postura de risco vem acompanhada de extremo conservadorismo.

Para quem não sabe, o seriado é centrado numa família que vive no limite da legalidade para conseguir sobreviver com uma funerária. Ela é composta pela matriarca que vivê bêbada de gim, Darlene (Marília Pêra); pelo patriarca Ruço (Miguel Falabella); sua jovem esposa  Abigail (Lorena Comparato) e pelos filhos do ex-casal, Odete Roitman (Luma Costa), a única que ganha dinheiro de fato, posando nua na internet, e Alessanderson (Daniel Torres). Ainda dividem a casa a secretária do lar Adenoide (Sabrina Korgut) e a Bá (Niana Machado), ex- escrava bem velhinha que não fala e é tratada como uma planta que é levada de tempos em tempos para tomar sol e se alimentar.

"Meu mau é a birita.. meu mau é a birita..." Essa é a música de fundo da principal personagem, Darlene, que Marília Pêra faz com maestria, mas no limite entre a sobriedade e a bebedeira que incomoda. Ela nem fica bêbada a ponto de, menos matriarca, podermos rir dela à vontade. Nem fica sóbria à ponto de rirmos de uma mulher que não precisa da desculpa da bebida para falar o que pensa e ser livre. Esse meio termo também aparece exatamente na relação que Ruço tem com sua atual mulherm  Abigail, sempre confundida com sua neta, e a filha. Com Abigail, Ruço é extremamente conservador e grosso, ainda que permita (!) a ela, no primeiro episódio, ir ao baile com a filha Odete Roitman. Já com essa última, Ruço tem uma relação extremamente liberal.

No capítulo inicial Ruço cumprimenta a filha de manhã perguntando se logo cedo ela estava trabalhando e ela, só de lingerie, pede sugestão de roupa pra usar com os clientes japoneses que a esperam on-line. Darlene tem muito orgulho do que a filha faz e, certa vez, se oferece até para segurar a câmera. Ruço a questiona como se fosse o público e ela diz ter orgulho da filha como um todo e não disso particularmente. A aceitação do trabalho de Odete Roitman é ambígua, pois não se sabe se o que é aceito é a liberdade da filha ou a filha como arrimo de família, afinal, como a personagem diz, é ela quem ganha algum dinheiro em casa. Quando põe a virgindade para vender na internet, Darlene ajuda a filha a fazer o leilão, enquanto Ruço tenta falar de amor. Darlene alerta a filha de que seu pai só fala bobagem  e a cena é interrompida por um conhecido do bairro que quer dar um salão de beleza em troca da virgindade de Odete Roitman.  O sujeito acaba sendo expulso a socos por Ruço e a família, mas a cena, parece não ter nenhuma força, já que o épisodio inteiro trata com normalidade a escolha da filha em vender seu hímen. Os protestos de Ruço, na verdade, são tão fracos que reforçam essa normalidade.

Ora, ora, ora... Não queremos aqui deixar de admirar a coragem do autor ao formar as duas duplas de irmãos: as gêmeas Soninha (Karin Hils) e Giussandra (Karina Marthin), que são uma negra e outra branca; e o casal de irmãos Tamanco (Mart'nália) e Marcão (Maurício Xavier) que optaram pelo sexo oposto. Criar o casal Tamanco e Odete Roitman também não é uma façanha menor, ainda que faltem cenas românticas entre elas para que seja configurada uma ruptura que pegue uma brecha na sensibilidade do telespectador. Contudo, nessa nova gramática de valores, onde ser negro ou homossexual é construído de modo complexo, quem parece se manter reduzida é a representação da mulher. Não à toa há, nesse programa, uma personagem como Luz Divína, uma senhora de idade com uma maquiagem bem pesada que vive repetindo como se acha bonita. Ora, ora, ora... rir da falsa pretensão de uma mulher em ser bonita para impor um padrão de beleza (discreto na maquiagem e jovem) é coisa muiito antiga! Recentemente vimos o Comédia MTV investir num personagem como  Fernandona, feita por Tatá Werneck, mas a insistência nele já era bem um tipo de sucesso decadente do programa, famoso por sair desses tipos de clichês apelativos.

Sim... Era para o progmara "Pé na Cova" ser engraçado, mas isso se tornou difícil de diversas maneiras.

É como se um clima de extrema ignorância, marcado pela representação de certo modo de conversação; se unisse ao clima de extrema necessidade, marcado pelo fato de que a funerária  ser, além de falída, uma funerária. Essa união parece tornar triste, e não engraçada, a separação de Ruço e Darlene, a liberdade de Odete Roitman e a ida para a política do filho desempregado e sem estudo,  Alessanderson. Ver a jovem esposa Abigail ouvir Ruço mandar ela calar a boca sem falar nada também não é nada engraçado nesse contexto. Ao invés de um seriado de humor temos uma profusão de representações de uma suposta classe C e D que não parece ter seus dramas levados a sério a ponto de que se ria deles. Inserir pitadas de poesia, característica do autor, não só não vai resolver como deixa o seriado ainda mais longe do humor.

Tenho certeza de que, mais uma vez, a representação da mulher é crucial para a falta de ibope desse programa, ainda que outros motivos pudessem ser apontados. Enquanto nenhuma delas realmente imprimir seus ritmo, de alguma forma, a essa narrativa, elas serão apenas mulheres desinteressantes que não buscam (ou buscaram) nada de modo determinado, nem dinheiro, nem amor, nem conhecimento, nem nada. Não dá pra rir nem pra chorar com elas. Por enquanto, Darlene ( a matriarca alcólatra), Abigail  (a joven esposa) e Odete Roitman ( a lésbica stripper de internet) são personagens que foram concebidos para serem transgressores da ordem. Contudo, para que sejam  personagens de humor, que é o que interessa para que sejam efetivamente transgressores, seria necessário serem mais do que mulheres da fase da vida de um homem: a ex-mulher chata e sábia; a atual mulher jovem, sexy e carente; a filha que envergonha o pai com o exercício da sua sexualidade, respectivamente.

Darlene prefere que o ex-marido esteja com uma mulher mais jovem e sua filha fique nua na internet? Odete Roitmam prefere vender sua virgindade? Abigail prefere a dependência de um cara que parece seu avô? Tudo isso poderia ser desejo de liberdade delas, contudo, o seriado atribui esse desejo a elas sem que haja conflito consistente, nem interno, consigo mesmas; nem externo, com outras personagens. A independência, a altivez e a força dessas personagens são tão fracas que, de fato, soam como algo do gênero trágico e não do humor, que exige personagens que não podem inspirar nenhum tipo de pena.

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