Lições de conjuntura nacional - Apartidarismo, antipartidarismo e mitos contemporâneos

Olá, olá, olá,

O assunto dessa semana é apartidarismo e gostaria de observar que ele nos é especialmente caro. Tive a oportunidade de conviver com pessoas que se autodenominavam apartidárias no movimento estudantil e sempre divergi politicamente delas por vários motivos. O principal deles era porque, para eles, a maneira como os grupos eram construídos acabava sendo mais importante do que suas pautas; enquanto que para mim, as duas devem ter pesos diferentes de acordo com cada conjuntura. Além disso, vi muita gente se dizer apartidário e depois virar assessor de político ou votar sempre no mesmo partido, o que me reforçou a impressão que sempre tive de inconsistência dessa identidade de grupo.

Na época eles se diziam tão de esquerda como qualquer grupo, mas agora vemos claramente como que, fora do grande-útero-universitário, o apartidarismo se harmoniza perfeitamente com diversas facetas conservadoras de nossa cultura política. Para evitar generalizações, contudo, é necessário fazer uma distinção importante nesses tempos de manifestações, que é entre apartidarismo e antipartidarismo.

No caso do primeiro, ele seria relativo ao questionamento de uma cultura de organização coletiva vertical, que caracterizaria todos os partidos, em nome de uma relação horizontal, sem líderes, que tocaria desde uma associação de bairro até Brasília, onde votaríamos, numa democracia direta, sem a mediação de representantes (políticos), decisões que hoje cabem ao Congresso Nacional, por exemplo. No caso do segundo, o anti-partidarismo, o que temos é um sentimento de revolta em relação a uma rotina de denúncias de corrupção nos noticiários do país, fazendo com que a classe política esteja associada imediatamente ao desvio de verbas públicas.

Ora, ora, ora...

Mas, se a maioria dos apartidários parecem nem saber o que é uma democracia direta, e justamente talvez porque os apartidários não são identificados com um projeto utópico e/ou organizacional claro (auto-gestão, democracia direta, anarquismo, etc.), acredito que são, na prática, facilmente confundidos com os anti-partidários.

Essa confusão entre ambos, no entanto, é absolutamente justificada, já que eles compartilham de mitos que consideramos muito negativos para nossa cultura política. Dentre eles aqui elegemos cinco, torcendo para que um dia o assunto mereça um tratado. Um tratado que levasse um título do tipo: "O indivíduo político irredutível e a impossibilidade da democracia!"... Chic no úrtimo, hein?


É possível ser democrático sendo anti-alguma-coisa
Ambos são uma anti-identidade que está até nos prefixos das palavras apartidário e antipartidário. A própria linguagem com que se instituem tem uma lógica excludente e de segregação, pois ela não é afirmativa, ela é só negativa. O que nós somos? Tudo menos isso. As manifestações mostraram que um ideal de mundo sem partidos combina muito bem com uma cultura autoritária e isso pra mim é sempre o mais nocivo.

Vejamos essa parte da carta de princípios do MPL, movimento que em outro post já demonstramos nossa admiração e respeito, mas temos essa discordância pontual: "... pessoas de partidos, enquanto indivíduos, podem participar desde que aceitem os princípios e objetivos do MPL, sem utilizá-lo como fator de projeção política." Sério mesmo? Porque pertencer a um partido não pode fazer parte da minha individualidade? Por que uma pessoa filiada a um partido, que queira participar do MPL, deveria criar uma dupla identidade (com e sem partido)? Isso não criaria um certo estigma em torno das pessoas filiadas? Não haveria certo preconceito em relação à autonomia política delas, como se, por serem filiadas, não fossem livres? Como se a escolha mesmo de ser filiado não pudesse ser, nunca, um gesto de liberdade? Como se o apartidarismo e o antipartidarismo também não exigissem um gesto informal de filiação que os caracteriza como grupo... Outra coisa, se sou filiado a um partido e ajudei a construir o MPL, porque não posso pedir votos dizendo que fiz algo que acho bom para o coletivo?

Enfim....

Diferenciar militantes por suas supostas intenções é algo bem perigoso, pois pressupõe um juízo sobre eles antes que abram a boca... Nada disso me parece muito democrático... Eu super-me-engajaria num movimento anti-partidos-fisiológicos, mas com a consciência clara de que, com esses partidos específicos, a gente tem que ser autoritário porque eles impõem de modo autoritário seus interesses particulares a todo o país! (rs, rs, rs)

É possível ser anti-alguma-coisa construindo essa mesma coisa
Ambos, apartidarismo e antipartidarismo, favorecem a cultura de ignorar e desconhecer o modo como a "máquina do estado funciona". Na medida em que fortalecem a antipatia em relação aos partidos, ambos desestimulam as pessoas a procurarem saber a diferença entre eles. Isso, por sua vez, gera uma despolitização que dificulta muito alguém se interessar pelos espaços públicos onde os partidos atuam.

Das Câmaras Municipais ao Congresso Nacional, acompanhar o que acontece nesses espaços sem saber fazer diferenciações básicas entre eles, não só os torna incompreenssíveis como, o mais importante, MUITO chatos!!! Quer dizer... Você não sabe nem pra quem você torce e, o pior de tudo, na hora de escolher o jogador vai pegar jogador que acabou de chegar do exterior todo quebrado!

De novo uso o exemplo da carta de princípios do MPL: "O MPL não deve apoiar candidatos a cargos eletivos, mesmo que o candidato em questão participe do movimento." É uma pena, gostaria mesmo que o MPL indicasse candidatos a vereadores e deputados estaduais que defendem os interesses da população na área do transporte público. Ao fim e ao cabo, até que o sistema democrático prescindisse de partidos daria tempo deles ajudarem bastante a gente a votar melhor, certo?

É possível ter uma posição política neutra
Ambos alimentam o mito da neutralidade politica, como se, não envolvidos com nenhum partido, soubessem imediatamente o que é melhor para o coletivo. Livre de interesses particulares, teriam a objetividade necessária para isso.

Contudo, isso não existe nem na política e nem em nada que seja construído a partir de uma linguagem. A ideia de que é possível ter posições políticas que são neutras parte do suposto de que fazer o que é melhor para todos é questão de levantar dados sobre o que a população necessita, determinar as soluções e implementá-las. Bastaria boa fé, decência, honestidade, etc. Tudo o que a classe política não teria.
      
Ora, ora, ora....

Enquanto o Estado depender disso para não ser depenado por gangues a corrupção está longe de acabar! Aliás, a corrupção é um belo exemplo de que não existe neutralidade. A tendência é achar que, bradando contra a corrupção na mesa do bar você não está defendendo uma posição política, mas uma moral mínima de comportamento dos políticos. Contudo, quando se fala em corrupção, se fala de que maneira? em que ocasião? qual partido é mais ou menos identificado com ela? qual o tipo de corrupção de cada caso? há diferenças entre as corrupções? Se há, ela é técnica e/ou de princípio?

Todas essas questões, que você poderia achar de um detalhismo absurdo, é o trabalho cotidiano de editores de jornais e televisões. Porque nunca entendemos direito o caminho da corrupção pelos noticiários? Com eles se aprende a xingar e esbravejar sem ter noção do que se passa, muito menos de qual seria a solução para o problema.

Nesse sentido, esse papo de que eu sou um cidadão honesto e com moral, sem partido, com opiniões neutras que gosta de falar que todo político é ladrão é ótimo para o político que é ladrão porque, enquanto a maioria xinga e moraliza seus atos, as regras do jogo que o permitiram roubar estão intocadas sem ninguém falar delas. O que resolveria a corrupção? Leis que evitem efetivamente a corrupção e a fiscalização dessas leis. Aliás... Por que foi tão pouca a comemoração da imprensa, o grande arauto da neutralidade (rs, rs, rs), pela lei da corrupção como crime hediondo? É muito tão estranho não acham?

Deve haver o primado do indivíduo na atividade da política
Como pode um partido representar a complexidade das minhas posições individuais? Aqui vai uma triste notícia, um partido não tem obrigação, como uma empresa prestadora de serviços, de atender a todos os seus anseios, no caso, políticos! Apartidários e antipartidários fortalecem a ideia de que a indignação pessoal deve bastar para mudar as coisas, já que, ao contrário dos partidos, não precisam apresentar um programa de como gerir o Estado.

Hã...

Desculpem falar assim tão francamente mas, enquanto indignação pessoal, a nossa vale tanto quanto a boa fé do Renan Calheiros! Assim como é fora da política, uma mesma indignação em relação a algo pode levar a caminhos opostos (da reconciliação ao assassinato), variando de acordo com a ideia de justiça que cada pessoa tem. Se não deixássemos o primado do indivíduo de lado, nunca poderíamos, por exemplo, viver em um mundo com regras coletivas. É apenas priorizando o coletivo, em algum momento, que é possível formular uma ideia de justiça que seja provisoriamente comum a todos e que evite uma sociabilidade de salve-se-quem-puder!

Ora, nesse sentido, o partido não deve representar ninguém como em sua totalidade-de-indivíduo-uno, mas uma combinação de posições desse indivíduo. Por exemplo, há anos voto, sem nenhuma crise, em dois partidos diferentes, um para os cargos executivos e outro para os cargos legislativos. Nenhum dos dois representam minhas posições em sua totalidade nem o deveriam porque eu nunca me dispus a construir nenhum deles!!! Eles representam partes das minhas posições políticas e isso pra mim, que não pretendo montar um partido e portanto não me responsabilizo, dessa forma, pelo espaço público, é o suficiente. Por maiores que sejam minhas críticas aos partidos que voto, penso como Guimarães Rosa uma vez falou numa entrevista: "Estou sempre do lado de quem assume a responsabilidade."

O voto nulo, em branco ou de piada interfere de modo relevante no cenário político.
Apartidários e antipartidários na época da eleição costumam namorar, o que é coerente, o voto nulo, o voto em branco e o voto de piada. Muita gente acha que há diferença na contangem dos brancos e dos nulos, mas não há nenhuma! Desde 97 ambos são excluídos da votação e a diferença é que nulo é o voto fruto de um número que foi digitado e não existia e branco é a escolha por não votar em nenum candidato.

 Com poucas diferenças, na minha opinião, têm o efeito de quem faz um voto de piada, já que a ideia é, de alguma forma, tentar se retirar da disputa eleitoral desqualificando o seu processo como algo em que não se deve interferir a sério. Votar no Tiririca é uma outra maneira, uma maneira mais ativa, vamos dizer assim, de anular o voto.

Nem todo mundo que vota assim é despolitizado ou mesmo vota assim sempre, por exemplo. Contudo, apesar das diferenças há uma lógica que ambos compartilham, pois na prática mantêm o resultado eleitoral como estava. Ainda que palhaços sejam eleitos, com certeza isso está longe de mudar a composição do congresso, certo? Enfim... Se mantém os resultados como estão tanto numéricamente como simbólicamente. Aliás, a votação de Tiririca é bem simbólica dessa manutenção, pois o que tivemos foi uma revanche do eleitor no sentido de passar a máscara de palhaço que ele achava que vestia para o político. A palhaçada mesmo, vamos dizer assim, continuou a mesma.

De todo modo... Isso que geralmente é interpretado como uma não interferência é, na nossa opinião, como qualquer situação de omissão, velha conhecida nossa. Se vemos uma situação no nosso cotidiano de injustiça e nos calamos (ou só fazemos uma piada) estamos favorecendo imediatamente quem pratica a injustiça.

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Por fim... Ser apartidário ou antipartido não ajuda em nada as pessoas a diferenciarem suas posições no que toca as diferentes formas de como gerir o dinheiro público, o que me parece que deveria ser a contribuição crucial de qualquer grupo em sua proposta de gestão do Estado e que não diz respeito só a se esse dinheiro é gasto ou não honestamente.

O MPL é apartidário. Contudo, entretanto todavia... ele resolveu se retirar das manifestações porque pessoas de partidos foram agredidas fisicamente, ápice do comportamento autoritário. Ora, é muito comum na política que uma mesma posição, a depender da mudança da conjuntura, ganhe sentidos opostos. No movimento estudantil os apartidários são associados a uma postura mais democrática e inclusiva nos espaços das assembléias; fora dele, eles estão sendo associados às pessoas que agridem fisicamente pessoas filiadas a partidos.

Enfim...

Não há uma verdade essencial nem nessa, nem em qualquer outra posição. O que há são diferentes experiências históricas que as sustentam. A minha, particularmente, sempre rejeitou o apartidarismo. Isso não quer dizer que não a respeite e não reconheça que pode haver nele elementos positivos, mas isso é assunto pra outro blog... O pequiariu, de fato, não consegue enxergar quase nenhum... 

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