Olá, olá, olá...
Muita gente viu esse
vídeo-serviço-de-utilidade-pública no qual PC Sirqueira e Diego Quinteiro
explicam a diferença entre esquerda e direita. Dou minha palavra de honra de que
a definição desses dois figuras é muito mais precisa, aprofundada e,
principalmente, à esquerda, do que 90% dos cientistas políticos que a USP
forma. Digo isso porque faz uns 10 anos que quem tinha a obrigação de
esclarecer só faz levar o debate público ainda mais para o obscurantismo,
dizendo que não há mais diferenças entre esquerda e direita porque não há
grandes diferenças entre PT e PSDB.
Bom... Em nossa falsa-humilde-opinião, são muitos os intelectuais-de-direita-que-se-acham-de-esquerda e se recusam a repensar os conceitos de esquerda e direita na última década, congelando aquilo que aprenderam antes da experiência do governo petista. Não sei se isso é causa ou consequência (acho que pode ser os dois), mas também insistem em ignorar o principal modo como hoje a disputa entre esquerda e direita se dá nas ruas e no cotidiano, qual seja, entre as posições a favor ou contrárias às políticas do atual governo.
Bom... Em nossa falsa-humilde-opinião, são muitos os intelectuais-de-direita-que-se-acham-de-esquerda e se recusam a repensar os conceitos de esquerda e direita na última década, congelando aquilo que aprenderam antes da experiência do governo petista. Não sei se isso é causa ou consequência (acho que pode ser os dois), mas também insistem em ignorar o principal modo como hoje a disputa entre esquerda e direita se dá nas ruas e no cotidiano, qual seja, entre as posições a favor ou contrárias às políticas do atual governo.
Ora, ora, ora...
Sutilmente esse vídeo ajuda a esclarecer, caro leitor, que é hora de repensar os conceitos de esquerda e direita a partir das duas últimas décadas levando em conta a história política no Brasil. Contudo, apesar da qualidade, a divisão feita pelos meninos não pode ser bem compreendida sem que se tenha a menor noção da oposição entre neoliberalismo e liberalismo. Mesmo sem citarem diretamente, é ela que eles têm em mente, ainda que nem de longe reduzam as posições de esquerda e direita, respectivamente, às de liberal e neoliberal.
Sendo bem genérica, para que vocês tenham uma imagem geral da coisa, o neoliberalismo pode ser definido como um modelo econômico no qual o Estado deve ser o mais magro e discreto possível. Como assim? Quanto menor for o seu tamanho, seu número de funcionários, empresas, instituições, gastos etc., melhor para o povo, pois ele é só um atravessador que tenderia a ficar com o seu dinheiro. O mesmo serviria para as empresas e o mercado financeiro que, quanto mais liberdade tivessem para competir entre si, mais poderiam lucrar e com isso gerar harmonicamente mais empregos e mais capital especulativo.
Já os liberais, por sua vez, acreditam que o
Estado não é um atravessador, mas o único capaz de distribuir a renda entre os
mais ricos e os mais pobres, já que o mercado e as empresas precisam dos pobres
para serem ricos. Para eles, o Estado deve ser gordo e forte. Como é ele quem
distribui a renda, ele deve cobrar o máximo de imposto para que depois isso
seja retornado à população na forma do máximo possível de bens essenciais como
saúde, educação, saneamento básico, moradia, segurança, etc.
No Brasil, o neoliberalismo foi representado pelo PSDB (94-02) e sua oposição liberal pelo PT (02-14). Muitos não sabem, mas há semelhanças no modo de gerir o Estado porque a raiz do modo de compreensão de ambos, o liberalismo, é a mesma. Assim, por exemplo, o primeiro privatizou (vendeu algo do Brasil para compradores-milionários-do-mundo-todo), uma empresa como a Vale do Rio Doce, que mantém funcionando um trem que carrega o minério do solo deste país 24h por dia, numa espécie de sangramento-econômico-nacional-sem-interrupção. Na era PT também ocorreram privatizações, contudo, nenhuma desse porte. Pelo contrário, o PT não só lutou contra a venda da Vale do Rio Doce na época como investiu quase 10 vezes mais na Petrobrás e criou a "Frente Parlamentar em Defesa da Petrobrás: o pré-sal é nosso", próxima jóia da coroa que o PSDB queria privatizar e já tinha até nome, Petrobrax.
De todo modo... é por compartilharem de um modelo de dessenvolvimento econômico liberal, de todo modo, que muitos resistem em separá-los entre esquerda e direita. Num caso como a Usina de Belo Monte vemos claramente um modelo desenvolvimentista que é humanamente desvantajoso, já que ameaça direitos do povo indígena e, se pararmos pra pensar, o quanto a usina vai lucrar não deveria nem ser questão tendo isso posto... Ora, mas isso não é ser neoliberal! É o oposto disso, pois uma usina é mais um aparato do Estado para produzir e distribuir renda, na cabeça de um político liberal. Ela é, portanto, uma política conservadora, mas não de direita. (Aliás, desculpem ofender o sudestecentrismo, mas se Belo Monte fosse interesse de um governo de direita talvez ela não tivesse nem deixado o movimento indígena vivo pra contar a história, no fim do post explicamos o porquê.)
Outro fator que contribui para a indistinção entre as políticas tucanas e petistista diz respeito à governabilidade. Pra quem não sabe, quando algo é feito em nome da governabilidade quer dizer que se não se tivesse feito uma determinada coisa, não se teria como aprovar nenhuma proposta no Congresso Nacional, no Senado, numa Assembléia Legislativa, numa Câmara Municipal, etc. ou no limite, haveria um golpe de Estado por via de forças armadas. É necessário diferenciar, nesse sentido, políticas como a de Belo Monte, da manutenção de Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos; do privilégio dado aos militares no que toca a investigação de seus crimes na ditadura; da resignação à emissora-monopólio-de-oposição numa política de comunicação quase inexistente etc., todas elas são políticas conservadoras que são feitas a partir de cálculos (apostas) que o PT faz para garantir a uma dinâmica de aprovação de suas propostas, promessas de campanha, e/ou o regime democrático.
O governo do PT nunca pode ser de esquerda
tal como os livros de sociologia previram por causa da governabilidade, mas
provou que o marxismo, seu fundamento teórico, é muito mais útil como conjunto
de ideias reguladoras, do que como conjunto de textos que compõem uma bíblia ou
um alcorão de mini-grupos que usam a teoria para nunca assumir a
responsabilidade política de gerir o Estado, de ser governo, da ser situação,
de ter telhado de vidro, de errar, etc. Por isso defendemos aqui que,
por mais divergências que tenhamos com os cálculos do PT, passou da hora dos
problemas relativos à governabilidade serem levados em conta em nossa forma de
pensar as diferenças entre esquerda e direita!
Será que a cobertura do PIG (Partido da Imprensa Golpista) das manifestações nas últimas semanas não é o suficiente para entendermos (jamais concordarmos) o motivo pelo qual a política de comunicação do PT, em nome da governabilidade, é conservadora? Caro leitor, como pode alguém, com o mínimo de conhecimento de História do Brasil e da América Latina, achar que vai haver distribuição de renda significativa sem perigo para o regime democrático? Como fazer Bolsa Família, Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida; redução do IPI em carro e linha branca; direito trabalhista para as secretárias do lar e agora para os caminhoneiros etc. sem pôr esse sistema em alerta? Por qual razão o governo de uma presidenta que foi torturada na época da ditadura favorece os militares na Comissão da Verdade se não por uma avaliação de correlação de forças na qual eles ainda devem ser levados em consideração no jogo político como um forte-peso-pesado?
Sinto informar caro leitor, mas se a governabilidade não fizer parte do que é ser de esquerda ou direita, continuaremos a achar, bizarramente, que dá pra ser de esquerda sendo contra programas como o Bolsa Família que distribuem renda a ponto de romperem com a velha cultura do coronelismo, como apontam em livro recente Walquiria Leão Rego e o italiano Alessandro Pinzani, "Vozes do Bolsa Família". Em entrevista, a autora coloca o problema político do Bolsa família de modo que endossa o lugar crucial que programas como esse devem ocupar em nossa reflexão sobre a distinção entre esquerda e direita: "Tem uma crueldade no modo como as pessoas falam dos pobres. Daí aparecem os adolescentes que esfaqueiam mendigos e queimam índios. Há uma crueldade social, uma sociedade com desigualdades tão profundas e tão antigas. Não se olha o outro como um concidadão, mas como se fosse uma espécie de sub-humanidade. Certamente essa crueldade vem da escravidão. Nenhum país tem mais de três séculos de escravidão impunemente."
Em um vídeo com muitos acessos na internet,
"Esquerda e direita sim"*, que tenta convencer a pertinência dessa
separação hoje, na pressa, o vlogueiro Tomishiyo fala que o pensamento de
direita é marcado pelo individualismo e o de esquerda pelo senso de comunidade.
Ele recebeu um comentário que nos fez refletir: "Chateado, você é de
esquerda :(". Notemos como seu argumento praticamente-cristão não tem
eficácia nehuma e não à toa a internauta carinhosamente discorda. Ao que
parece, vivemos numa sociedade na qual o termo individualismo deixou de ser
negativo e está surgindo um senso comum que olha pra valores antigamente
consensuais como ajudar o próximo e já não simpatiza muito com eles. Ele se
pergunta sinceramente, do fundo do coração: qual o problema em ser
individualista e pensar no meu primeiro? Isso não é a condição mesma de ser
humano? Lutar, subir na cabeça dos fracos para sobreviver? Como posso proteger
minha família se não pensar assim?
É necessário defender a diferença entre esquerda
e direita também porque é necessário identificar diferentes formas de
justiça e portanto duas formas de se emocionar e interagir com o mundo...
Um último exemplo de porque essa oposição não só é fundamental para entender qualquer cenário político, como deve ser identificada, respectivamente, com o PT e o PSDB (mesmo estando longe de representarem como partidos os extremos dessas posições), é o caso de Pinheirinho, o maior crime-de-guerra-pelo-dinheiro cometido pelos tucanos. Ele serve para demonstrar as duas ideias de justiça que esses partidos põem em prática, pois enquanto um demonstrou ver um problema social, no caso o da moradia, como responsabilidade de um governo, o outro demonstrou vê-lo como caso de polícia.
Por mais que reconheça o que chamaria, sem querer investigar, de "excessos da polícia", dificilmente um tucano acharia a sua atuação propriamente injusta. Apegado à força da lei, ele diz que aqueles que moravam ali tiveram a oportunidade de melhorar de vida, mas não tiveram o mérito de fazê-lo e por isso estão ali querendo roubar o que é dos outros. Já o dono do terreno, por ser o dono (apesar de não ter pago muitos meses de IPTU), tem o mérito de possuir aquele terreno. Não importa se ele apenas deu a sorte de ser filho do antigo dono, essa sorte é vista como mérito e no limite, esse é o fundamento da meritocracia (governo dos que tem o mérito) de direita que PC Sirqueira fala no vídeo. No limite, ela é a crença absoluta na ideia de que uma competição é sempre justa, que os concorrentes sempre terão as mesmas condições de se inserir no mercado de trabalho, por exemplo, não importa se a barriga de onde ele nasceu vivia de calango ou de foi gras.
Quem é de direita ODEIA o Bolsa Família e qualquer tipo de cota nas universidade, especialmente para pessoas negras, porque esses programas feririam profundamente o seu entendimento de meritocracia. Para eles, a única ajuda que alguém pode e deve receber é a da própria família, se a ajuda vier do governo, então é coisa de vagabundo e gente sem mérito próprio.
Contudo, entretanto, todavia...
PC Sirqueira esqueceu de falar que há uma meritocracia que a esquerda também defende, que é aquela responsável por uma grande melhoria em boa partes das nossas instituições, relativa à garantia do mínimo de mérito e formação numa determinada área para ocupar um alto cargo público nela. Até o caso-Feliciano, para dar um exemplo, justamente boa parte da popularidade da Dilma estava vindo de sua imagem de presidenta exigente quanto ao preparo técnico de seus aliados para ocupar os cargos.
No primeiro caso, na meritocracia de direita, as pessoas abaixo da linha da miséria não tem o mérito necessário para receber um auxílio financeiro do governo e ter mais chances de competir no mercado de trabalho por uma renda maior para sua família; no caso da meritocracia de esquerda, essas pessoas merecem esse auxílio para que justamente possam ter melhores chances de competir no mercado de trabalho e é por isso que a única exigência feita para receber o Bolsa Família (o único mérito exigido) é colocar os filhos na escola. Para um o dinheiro do Bolsa Família é dado, para o outro é dinheiro distribuído; para um ele é usurpado, para outro ele é direito; pra um ele é jóia da coroa, pra outro ele é esmola. Um acha que o Estado brasileiro não deve nada à população classificada como abaixo da linha da miséria, o outro acha que isso é apenas um início de acerto de contas entre ambos.
Duas concepções diferentes de justiça, dois
entendimentos diferentes do que seja meritocracia.
Voltando ao massacre de Pinheirinho, segundo um artigo da época, "Pinheirinho evidencia as diferenças entre PT e PSDB", de Ricardo Kotscho**, "as tropas federais felizmente não apareceram. Só estava lá para acompanhar a operação o secretário de Articulação Social da Presidência da República, Paulo Maldos, que foi atingido nas costas.(...) Na hora da desocupação, havia duas ordens judiciais opostas circulando. A da Justiça estadual, determinando a reintegração de posse; a da Federal, mandando suspendê-la."
Ao contrário do jornalista, eu acho que as tropas
federais tinham que ter ficado e começado uma guerra civil! Contudo, eu não
posso dizer que o papel desses partidos é o mesmo, pois um comandou a barbárie
e outro tentou evitá-la. Apagar isso só favoreceria os assassinos que querem
apagar a memória que devemos manter SEMPRE viva, assim como os mandados
de prisão que receberem o governador-criminoso Geraldo Alckmim, o presidente do
Tribunal de Injustiça, desembargador Ivan Sartori e o
mega-especulador-produtor-de-miséria Naji Nahas emitidos pelos crimes cometidos
contra a humanidade no Pinheirinho.
Enfim... É muita demagogia achar que sem um
partido de esquerda, tal como é o PT, ainda que defendamos que ele o seja cada
vez mais, poderíamos hoje sequer sonhar em disputar com esses lixos no
poder!
Dizer que a divisão entre PT e PSDB é tão fraca e inútil quanto a entre esquerda e direita tem sido um dos desserviços-fatais para o conhecimento da história do Brasil, a partir da qual o cenário político deve ser julgado, e não por meio de análises abstratizantes, ainda que os números econômicos no governo do PT sejam incomparávelmente superiores aos do PSDB no que toca a distribuição de renda*** É uma pena que muita gente que se acha de esquerda tenha contribuído para essa falácia e tenha se esquecido das dimensões humanas básicas da política, ao contrário da direita que jamais abandonou a sua ideia de humanidade na qual só cabem os seus irmão de classe, seus aliados na política, seus familiares...
Por tudo isso apóio todos os movimentos sociais que foram, estão indo e ainda irão às ruas exigir suas pautas aos governos do PT, do PSDB, do PMDB, do PSB, etc. Contudo, não apoio a lógica de achar que ser de esquerda é ser oposição ao governo porque não só o governo federal é de esquerda como ele conta com boa parte dessas manifestações para a sua melhoria, ainda que queiram usá-las, ao contrário, para implodí-lo.
Passou da hora do eleitor do PT (ocasional ou não), com todas as suas críticas ao partido, defender o seu voto como um voto de esquerda, sem nenhum tipo de constrangimento incutido pelos clichês cultos e incultos! Sem essa clareza, vai ser cada vez mais difícil caracterizar como de direita a evidente atuação dos tucanos que, sob a atual conjuntura de domínio de Aécio Neves e seu grupo, diluiu o que era uma aliança na ideologia mesma do partido!
Outros tempos, outros posicionamentos...
*https://www.youtube.com/watch?v=h9LG3_ztAYY
** http://www.advivo.com.br/blog/jose-carlos-lima/pinheirinho-evidencia-diferencas-entre-pt-e-psd
*** http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-numeros-das-gestoes-do-psdb-e-do-pt
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