Olá, olá, olá...
Confesso
que sou uma ouvinte de rap
universitária. Portanto, sempre gostei das letras dos Racionas apesar do
machismo e não por causa dele. Depois do show da Virada Cultural deste ano de 2013, cheguei em casa e corri para ouvir
as
músicas novas da banda, que ainda não saíram em CD, e entre elas encontrei
“Mulher elétrica”, lançada já faz 4 anos. Só pelo título, fiquei morrendo de curiosidade de ver como uma das minhas bandas prediletas tinha se dedicado a uma forma de representação da mulher que não tinha nada de pejorativa.
De fato, não era pejorativa, mas o tipo de lisonjeio que ofereceu soou, vindo de uma banda tão séria, menos do que migalha...
Na minha falsa-humide opinião,
além de despolitizada, a música não é um rap, nem no ritmo, tipo disco anos 80; nem na letra, em que a repetição do sujeito e do verbo "Ela é..." não nos conta nenhuma história ou afirma alguma crítica:
Ela chega, Ela olha, Ela bate um flash, Ela invade a
pista e ninguém se mexe
Ela dança, Ela ri, Ela quer curtir, quer amar, quer
beijar quer se divertir
Ela manda, Ela pode, Ela é quem faz, Ela é funk, Ela
é samba, Ela é mais mais mais
Ela é Kingston, Ela é Barra Funda, Ela é Bela Vista,
reflete no globo ilumina e pista, Ela é...
Ela é preta na cor loira no cabelo, Ela é 1 hora e meia
em frente ao espelho, Ela é...
Ela é Naomi, Ela é Clara, é Nunes, é Dona Summer,
Rosa, é Sônia, Ela é Tereza,
Ela é Ana, Ela é Glória, Ela é bem Brasil, me engana
que eu gosto ela tem tristeza balança o swing rara
beleza, Ela é...
Vejamos que os predicativos do sujeito que completam o "Ela é..." podem ser agrupados em três: coisas que ela faz; nomes de marcas caras e bairros populares; e nomes próprios, de cantoras famosas e mulheres comuns. No caso das coisas que ela faz, chama atenção o fato de não ter nem uma atividade que envolva elementos intelectuais: trabalho, diálogo, posicionamento etc... Tudo isso parece estar fora da musa a quem a música se dedica e que é a garantia principal de sua verossimilhança, a feminilidade real da mulher do funk.
"Somos o que somos, somos o que somos, cores e valores, cores e valores" Se deslocássemos esse verso da música feita pra Marighella para esta outra, será que não poderíamos tirar daí um sentido um tanto conservador? Falo assim... Durante todos esses anos fazendo rap pra convencer os manos disso ou daquilo; agora, quando fazem uma tentativa de falar para as minas, não se tenta convencê-las de nada, aceita-se o 'somos o que somos'? Simplesmente se abandona o rap e a própria tentativa de mudar o imaginário das periferias de todo o Brasil?
Vejamos quão sintomático são os predicativos do segundo tipo, que opõem marcas caras e bairros populares.Porque não opõem marcas de roupas caras a marcas baratas, ou bairros caros a bairros baratos? Porque evitar comparações da mesma natureza? O que aconteceu com o brinde da garrafa de champanhe com a tubaína tuti-frutti?
Ao que parece, antes dava pra fazer esse brinde porque tinha uma música inteira dizendo que ele não era uma tentativa de harmonia entre a união das classes. Contudo, nessa música "Mulher elétrica", a mulher construída pelas sobreposições de imagens é a "mulher brasileira", sem classe e sem cor porque imaginada como sem história e, principalmente, sem ter características intelectuais, no sentido amplo da palavra, positivas.
No final das contas, vejamos que música não se dirige às minas tal como esperaríamos de um rap, e apenas tenta convencer os homens a não serem ciumentos sem se sentir otários. Notemos os trechos abaixo:
Ela opera a festa, Ela é quem comanda e a minha
comanda quase preencheu, mais
Se Ela vier valeu.... ooo entendeu...
Contos de uma festa Black é a cinderela High Tech, vai
vendo muleque, Ela foi capaz
de entrar no banheiro e não voltar mais, Ela é...
(refrão)
Onde vai...? Mulher Elétrica
Mulher Elétrica 3000 volts
Ela é frenética hipinotizou
Haaaau maquiavélica me atraiu
Onde vai...? Mulher Elétrica
Mulher Elétrica...
Essas duas estrofes são intercaladas pela mensagem automática que avisa que o telefone está indisponível e diz: "por favor, verifique o número discado e tente novamente". Haveria então, junto com essa "mulher-predicativo", outra que age, domina a festa, 'cinderela Higt Tech' que dá um perdido em um cara na balada, maquiavélica.
Bom... Eu seria a primeira interessada em levar a cisão para o lado poético, se caso falássemos de poesia/canção (ainda que não fosse rap) de qualidade. A própria expressão, 'maquiavélica' denuncia o tipo de machismo antigo, não porque o termo em si mesmo foi empregado na música, mas porque, ao longo da música toda, é a única qualidade intelectual que a imagem da mulher na música apresenta. Ou seja, o problema do termo 'maquiavélico' não é o seu emprego, mas a maneira como é empregado, isolado entre a maioria esmagadora das qualidades ligadas ao corpo, à emoção, ao comportamento etc.
O sentido de 'maquiavélico' é reforçado pela a imagem geral que a totalidade da musica constrói de uma mulher que dá um perdido em um cara. Mas por que ela dá perdido em um cara? Vejamos esse outro trecho da música:
3 da manhã, Ela é só suor, Ela flerta, Ela causa, Ela é
mó B.O.
Ela é manta, é nagô, é ioruba, Ela é vingativa, Ela é de matar !!!
Ela canta, Ela chora, Ela multa, Ela compra, Ela bebe e malandro paga, Ela...
E a festa não acaba... uns 10 na fita e eu também...
se vai vai, vem vem...
Como pode se ver no trecho acima, o motivo do perdido fica implícito no 'malandro paga' ou é impressão minha? Na música, esse verso sofre até uma quebra no ritmo para ser destacado.Fico muito receosa em fazer um juízo moralista da música, mas há nela uma espécie de convocação de uma mulher abstrata e generalizante que lembra sua representação na música de Jorge Ben Jor, mas sem a leveza e a ginga daquele, nem a profundidade e capacidade de reflexão crítica do rap por meio de imagens cujas narrativas constroem dramas e dilemas. Os Racionais e o rap sempre tentaram desfazer mitos. Porque agora construir uma mulher "Cinderela High Tech"?
Afinal, não parece haver mulher elétrica nenhuma. Se ela é elétrica e de atitude (não elétrica no sentido de um objeto a ser ligado na tomada) porque ela desliga o celular ao invés de falar diretamente com o mala que fica ligando? Por que não pode deixar claro o que quer? Porque não pode ser nada mais do que objeto de 'pagação de pau'? Porque não pode ter uma trajetória como os homens representados no rap?
Ao que parece, junto com o ritmo pop que substitui o rap nessa música, a mulher elétrica perde a bateria e fica pra lá de ofuscada!
Excelente texto!
ResponderExcluirParabéns pelo texto... Faz a gente enxergar como os nossos mais triviais elogios à mulher estão recobertos da mais arraigada abordagem preconceituosa... Mas, vejamos. Por que é que sempre se tem que atribuir à mulher (e ao homem, também, porque não?)para valorizá-la, uma "qualidade intelectual", como se a síndrome feminista quisesse e tivesse que atacar apenas essa abordagem? Na minha opinião, o belo faz pensar, o belo questiona, o belo impõe. Tudo isso, simplesmente, porque o belo é uma das mil e uma formas do corpo de expressar e aqui não reitero apenas o belo exposto pelas formas perfeitas ou idílicas. O belo que se ressalta é também o do jogo da sedução, das artimanhas irrefreáveis do sexo, da mulher como porta-voz e guardiã dos sentimentos, da polidez, da altivez e do imponderável poder que vem do corpo.
ResponderExcluirCansei-me um pouco da infindável ladainha que prolonga a briga entre razão e emoção, mente e sentimento, alma e corpo, santidade e pecado... Não é o corpo que precisa ser criticado e sim sua objetificação, assim como a objetificação da própria razão, que em suas imposturas reiterantes, vem anunciar o fim de toda e qualquer forma de fugir da opressão e da inevitabilidade dos destinos cruéis. Por hora, digo apenas que a razão tem uma insanidade absurda, absurda, absurda.
Nossa Zé... Eu concordo com você e na verdade eu me esforço mais do que 99% das feministas que conheço para me livrar dessa 'ladainha' como bem demonstra meu artigo sobre a Valesca. A divisão entre corpo e razão não sou eu quem faço e não acho que o feminismo seja uma síndrome quando retoma essa divisão para apontar o como ela é injusta presente na representação de homens e mulheres. Lembrando que, assim como a mulher é identificada com a inteligência maquiavélica, o homem tende a estar amarrado por grandes grilhões ao lugar de porta voz da razão, ainda (ou principalmente) que esteja destuido dela por completo.
ResponderExcluirMeu texto não é sobre lisonjeios inadequados, meu texto é sobre o abandono do rap.
Falei de gênero para falar de uma música que chama "Mulher elétrica" e poderia ter falado do belo se não tivesse achado a música ruim. Por isso acho também que não tem problema falar de política (gênero) ao invés de sua téchne música 'disco' ou do modo como construiu uma sobreposição de imagens que, você tem razão, figura um jogo da sedução corporal. Essa sedução do corpo, contudo, tem a mesma motivação implícita do funk, o que não teria problema se fosse de fato um funk. Na verdade, essa música não é nem libertadora-pacadona como o funk, nem libertadora-verborrágica como o rap.
Essa é uma diferença entre gêneros musicais e letras, não entre razão e emoção.
Musica pop falando de mina na balada tem um monte e essa daí não se diferenciou em nada da maioria delas... O público tá muito certo de não dar ibope pra esse novo Racionais e a banda mais ainda de ainda não ter gravado nem feito clip dessa música. É constrangedor e triste colocar essa música na história da composição dos Racionais...
O que critiquei e condenei não foi o corpo, mas a ausência de elementos (intelectuais ou não, para ficar do seu gosto)que não deixou configurar para mim nada além do mais do mesmo que qualquer música pop sobre esse novo topos da música popular 'a vida na balada'. Na verdade, acho que o que chamou de 'síndrome feminista' vem justamente do conceito que você emprega, e eu evitei, de objetificação. Esse sim tem, historicamente, um emprego super moralista e castrador em relação ao corpo por parte das feministas. (A famosa condenação da mulher objeto, sempre caracterizada como aquela que exerce mostra o seu corpo e exerce sua sexualidade sem gratuidade, como se isso fosso algo por si só condenável)
ResponderExcluirMarina Riso,
Concordo plenamente com a sua resposta. E digo mais: mesmo que ele tivesse colocado algum adjetivo que qualificasse positivamente o intelecto da mulher não salvaria a música. Ela é muito ruim!!!
Assim como muitos fãs, esperava muito mais dos Racionais. Acho que eles foram contaminados pela eterna síndrome gerada pela chata e insossa Garota de Ipanema!!!
Síndrome musical de Garota de Ipanema é a melhor!!! (rs, rs,rs)
ResponderExcluirPessoal, esse texto é muito legal sobre a educação de meninas. Realmente Zé, sua discussão me fez pensar que não se trata de recalcar o corpo (esse texto tem um pouco isso, assim como o meu também), mas de ressignifica-lo, já que, como mostra esse post no link, há uma geração de garotinhas adoecendo por uma forma particular de dedicar o sentido de suas vidas a ele.
ResponderExcluirhttp://lobjettrouve.wordpress.com/2012/08/15/como-conversar-com-meninas/