Roda Viva mostra os dentes e Tom Zé a engole!

 
Olá, olá olá,

Aqui segue a entrevista (?) de Tom Zé ontem ao Roda Viva. Pra quem está na dúvida em apertar o play eu juro que cada minuto da companhia dele vale ouro. Apenas nas entrevistas de Guimarães Rosa vi essa total capacidade de  comandá-la e transformar quase por completo a sua situação enunciativa. Deixando o termo técnico de lado, é mais e menos do que uma entrevista um entrevistado que a inicia lendo poemas que fez para cada um dos entrevistadores. Tom Zé começou pelo apresentador do programa e acabou, ironicamente, com o poema mais elogioso para o cartunista Caruso. De fato, neste novo formato, o melhor entrevistador é aquele que não faz perguntas. Tom Zé fala em forma de poesia e teoria.

Impressionou também o modo  uma espécie de estrela e anti-estrela. Se por um lado vemos um senhor de idade tentando deixar um tablet desbloqueado sem conseguir e expondo os fracassos musicais e as puxadas de tapete que resultaram em 25 anos de ostracismo e o quase abandono da carreira musical; por outro lado ele é uma estrela pós-moderna que muda a lógica da lógica de se tornar uma figura pública como artista. Tom Zé não quer e não consegue fazer média. Seu corpo, seu sotaque, seus gestos são Irará. A classe média e a elite não teriam como suportar, e alguns entrevistadores não conseguiam esconder isso com caras de quem não entendem o que não merece ser entendido. Afinal, o que a sua forma de pensar não alcança só pode ser meio ridículo, não? Do alto da bancada desse programa decadente alguns mostravam sutilmente os dentes. E Tom Zé, como grande músico, orquestrou essas arcadas de modo impecável.

Nem quem é fã da sua música não entendeu, como Patrícia Palumbo. Ela perguntou se Tom Zé tinha noção de quanto ele era contemporâneo, dada sua importância para músicos importantes mais jovens. Ora, ora, ora... Tom Zé não precisa sentar a bunda no Roda Viva e se afirmar da mesma maneira que o establishment. Afinal, e se os músicos jovens não gostassem de sua música? Seria menos contemporânea? O músico dispensa completamente argumentos de autoridade. Patrícia, contudo, parece ter dirigido a Tom Zé a pergunta que queria fazer para os outros entrevistados. Sim. A maior parte deles têm dúvidas da "contemporaneidade" de Tom Zé, não por sua música, mas por esse corpo, pérola nordestina, que não se dobra.

É muito sutil mas... Porque Wisnik precisa dizer que reconhece Tom Zé como artista? No meio de um pergunta sua encotramos essa observação, como vocês verão, como se, ainda, o músico e o telespectador precisasse desse tipo de certificação:  "qual você acha que é o papel da arte, que eu sei que é o que você faz..." Também é meio bizarro que Teca Lima assuma um tom professoral para explicar ao próprio músico o fracasso de "Todos os olhos": "é um álbum que você radicalizou muito... experimentou demais... muito." Mas o vencedor desse Top 3 vai mesmo para o apresentador que, depois de tentar não dizer o nome de Tom Zé, numa espécie de homenagem, deixa escapar:  "Voltamos com Tom Zé, o jardineiro das Perdizes." Entre músico, inventor e jardineiro, porque jardineiro? Ressentido em ver sua entrevista comandada pelo entrevistado, pouco imaginação resta a Conti.

É. Só uma linguagem revolucionária como a de Tom Zé para lidar com mentalidades que tentam, mas não conseguem ao menos esconder a mediocridade, bem representada no Roda Viva, que graça no jornalismo e entre intelectuais de modo geral. No fim de semana irão todos jantar em restaurantes caros e comentar como Tom Zé é uma pessoa difícil. Seu amigos vão concordar e, como nos últimos trinta anos, vão se acalmar por saberem que são muito superiores e esclarecidos diante desse "doidinho ressentido". Pois é... Tom Zé expõe o que seriam supostas fragilidades suas e quem se acostumou a escondê-las acredita nelas. Ora, ora, ora... Frágil mesmo é quem esconde seus defeitos, suas fraquezas e, de certa forma, sua humanidade. Nesse sentido, a entrevista é de um gigante feita por uma maioria de pessoas de tamanho normal.

Bom, mas o que realmente importa é que, ao que parece, as gerações mais novas chegaram a tempo de reconhecer e divulgar não só o seu trabalho, mas também uma forma radical de exercício da liberdade musical e de opinião. Sem dúvida, ela também reconhece quem, antes da era da internet, conseguiu fazer sua música e seu público fora de toda essa lama-mesmice de ideias e linguagens feitas por gente que repete, a cada ano que passa, com mais afinco, as mesmas ideias

2 comentários: